A trama de seus romances e as paixões de suas personagens fazem de Stendhal (1783-1842) um escritor romântico. O estilo seco e a precisão com que representa a sociedade do século XIX colocam Henri Beyle (verdadeiro nome do escritor) entre os maiores representantes do realismo. E a ironia e a estrutura farsesca de um livro como A cartuxa de Parma são precursoras da literatura do século XX: Stendhal abdica da representação totalizante do mundo em proveito de uma visão parcial da realidade, expressando a psicologia instável do herói ou anti-herói moderno. Todos esses valores, contraditórios entre si, estão presentes neste romance em que o jovem aristocrata e ingênuo Fabrício Del Dongo vive peripécias amorosas e conspirações palacianas na Itália. Ao lançá-lo no período imediatamente posterior às guerras napoleônicas, Stendhal contrapõe um maquiavelismo solar – cujo símbolo, para ele, era essa terra de intrigas passionais – às maquinações de uma burguesia financeira que, em sua França natal, havia sepultado o ímpeto revolucionário representado por Bonaparte. Por trás de toda a arrebatadora leveza de A cartuxa de Parma, enfim, há um fundo alegórico que é político e até mesmo antropológico: uma apologia da energia vital e da beleza (essa “promessa de felicidade”) contra a hipocrisia e o pragmatismo.
Manuel da Costa Pinto
Crítico literário e colunista da Folha
Crítico literário e colunista da Folha

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