Quando penso na minha vida de leitor, confesso que nenhum outro livro de língua portuguesa me impressionou tanto como este Memórias póstumas de Brás Cubas. Não apenas pela situação insólita de ter um defunto como galante autor, o que significa acompanhar a sua alma leve e sardônica por uma existência terrena feita de ilusões e fracassos. O assombro que senti estava na agilidade técnica de Machado (1839-1908) , revolucionária para a época; no gosto pela subversão da Literatura (com maiúscula) e de todas as suas convenções (românticas, realistas, não interessa); e, finalmente, na capacidade de Machado em transformar a miséria da natureza humana – nossas vaidades; nossas mentiras; nossos amores por mulheres que retribuem o sentimento “durante quinze anos e onze contos de réis” – em material simultaneamente popular e erudito, lúgubre e jovial, pessimista mas libertador. Se hoje escrevo, em parte devo-o a este “livro que cheira a sepulcro”. E como é doce o odor dos vermes!
João Pereira Coutinho Professor e colunista da Folha

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