De Verdade, Sándor Márai.


Escrito ao longo de quatro décadas, e na voz de quatro narradores, De Verdade disseca os conflitos do amor e do casamento, além de revelar os bastidores da burguesia decadente da Europa Central entre as duas grandes guerras. Demarcando com agudeza a fronteira intransponível que separa as classes sociais, o romance reabre as cicatrizes de uma capital agonizante, sitiada pelas tropas comunistas.
Numa confeitaria de Budapeste, Ilonka cota a uma amiga a história de seu casamento desfeito, relembra a inutilidade do esforço para decifrar a intimidade e para conquistar a alma do ex-marido, encantado, em segredo, desde a juventude, por uma simples criada. Depois, na atmosfera carregada de um café, Péter, o ex-marido de Ilonka, narra a um amigo a sua própria versão sobre a separação, evoca a dor da perda de um filho, e reconhece o preço pago pela paixão inconfessável por Judit, a empregada que servia na rica mansão de seus pais.

Mais de trinta anos depois, na cama de um quarto de hotel em Roma, Judit fala ao novo namorado, um músico da noite, sobre a infância miserável, sobre os dissabores vividos vivido na casa dos patrões burgueses e sobre a união fracassada com Péter, condenado de início pelo abismo inexistente entre seu ressentimento indissolúvel e as amarras impostas a seu parceiro, nobre por herança e filiação.

Judit descreve ainda a convivência singular com Lázár, o escritor velho amigo de Péter, entre os escombros da capital húngara bombardeada. No relato de Judit, descobrimos a solidão, o desapego material, o desprezo pelas convenções, a paixão pelas palavras, o compromisso com a literatura, traços essenciais do escritor de verdade.

Finalmente em Nova York, o baterista de cabaré, o último confidente de Judit, obrigado a emigrar para deixar de ser um delator a serviço da polícia secreta da Hungria anexada ao bloco soviético, faz uma crítica áspera da ditadura da sociedade de consumo que, em meio ao culto das aparências e a avidez desmedida pelo dinheiro, corrompe o sonho americano.

Biblioteca Viva

Em 1947 Érico Veríssimo começou a escrever a trilogia "O Tempo e o Vento", cuja publicação só termina em 1962. Recebe vários prêmios, como o Jabuti e o Pen Club. Em 1965 publica "O Senhor Embaixador", ambientado num hipotético país do Caribe que lembra Cuba. Em 1967 é a vez do "Prisioneiro", parábola sobre a intervenção do Estados Unidos no Vietnam. Em plena ditadura, lança "Incidente em Antares" (1971), crítica ao regime militar. Em 1973 sai o primeiro volume de "Solo de Clarineta", seu livro de memórias. Morre em 1975, quando terminava o segundo volume, publicado postumamente.

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