Érico
Veríssimo (1905 - 1975) foi, e é, um dos escritores de maior sucesso
neste país. Há boas razões para tal. Em primeiro lugar, a sua ampla
visão histórica e social, particularmente do Rio Grande do Sul, o estado
onde nasceu e viveu. Depois, a sua extraordinária capacidade narrativa.
Por último, mas não menos importante, o seu dom de criar personagens.
Essas três qualidades estão presentes em "Um Certo Capitão Rodrigo, da
monumental trilogia "O Tempo e o Vento", que é o épico
gaúcho: cobre, em três volumes (O Continente, O Retrato, O Arquipélago)
praticamente toda a história do Rio Grande do Sul, desde a conquista do
território aos espanhóis, no século XVII, até meados do século XX.
Acompanhamos a trajetória de Rodrigo Cambará, veterano guerreiro, que em
1828, surge - a cavalo, cabeleira ao vento, violão a tira colo - no
fictício povoado de Santa Fé. Chegado ao jogo, à bebida e à mulheres, é
uma figura desafiadora que destoa dos pacatos moradores da vila,
governados com mão de ferro pelo tirânico coronel Ricardo Amaral Neto.
Mas Rodrigo não sairá dali apaixonado que está por Bibiana, filha do
rude Pedro Terra e cortejada por Bento Amaral, filho do Coronel Ricardo,
que assim tem uma razão a mais para não gostar do forasteiro Rodrigo,
que sempre enfrentou com destemor o desafio de matar ou morrer e não
recuará - o resultado é uma estória que prende e fascina o leitor (a
cena do duelo entre Rodrigo e Bento é antológica).
Rodrigo Cambará corresponde à imagem clássica do gaúcho, destemido,
aventureiro, mulherengo, mas também autêntico e generoso. Érico, porém,
estava atento ao estereótipo, à caricatura; seu personagem é complexo,
contraditório. O autor não nos fala só do Rio Grande do Sul. Ele nos
fala da condição humana. Por isso, "Um Certo Capitão Rodrigo" é grande
literatura.
Moacir Scliar
Moacir Scliar

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