O crime do padre Amaro, primeiro romance de Eça de Queirós (1845-1900), não é apenas “uma intriga de clérigos e de beatas tramada e murmurada à sombra de uma velha Sé”, como o próprio autor escreveu. Mas também não será, como certa crítica defende, uma mera condenação moral e espiritual do clero – e da hipocrisia abjecta das mulheres devotas, que rezam aos santos certos e se entregam a luxúrias com os homens errados. Este romance sobrevive na memória do tempo pela extraordinária força dos seus personagens – em especial de Amaro, o jovem que seguiu o sacerdócio sem real vocação e que sucumbe ao mais prosaico dos sentimentos quando se apaixona por Amélia. Acompanhar os seus atos e pensamentos – a angústia da transgressão; o ressentimento pela liberdade amorosa de terceiros; mas também a fragilidade típica do amante; os seus ciúmes reais ou imaginários; e a dilacerante ambiguidade com que ele contempla o horrendo crime – é conhecer por dentro a tragédia de um homem em carne viva que o leitor irá reconhecer como um de nós.
João Pereira Coutinho
Professor e colunista da Folha
Professor e colunista da Folha

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